TRANSITANDO EM NOVOS PARADIGMA

15- O QUE JUNG TROUXE DE NOVO E DE POSSIBILIDADES (VEJA ARQUIVOS)

Outro dia alguém comentou irritado porque defendi a perspectiva de Bert Hellinger, quando em um post de um psicanalista diziam e comentavam que a Constelação Familiar era uma enrolação e que nāo servia para nada. E eu coloquei que o legado de Bert Hellinger era muito bom e se havia pessoas que não sabiam aplicá-lo, isso ocorria também na psicanálise e outras psicoterapias. E, de fato, existe resistência por parte de psicoterapeutas de escolas de psicologia tradicionais, não todos, em  aceitar o novo na ciência. Também há competição no mercado de trabalho .

Eu já fiz um artigo, nesta seção de meu portal Artesanias de Veronica  Miranda-Jung Para a Vida, chamado Reverência, em que coloco a reverência que Jung tinha por outros conhecimentos, sem preconceitos e sem resistências, apesar de toda pressão do meio cientifico positivista da época.

E foi isso que possibilitou, com sua abertura, algo além do que apregoava Freud, tornando-o atual e possibilitando a criação de uma "cosmovisăo" de seu conhecimento, e não somente uma psicologia. E isso permitiu que o legado de Jung possa servir hoje  como um conhecimento necessário nas atividades em que esteja o ser humano se transformando, em uma nova cultura e nova sociedade, além de fornecer subsídios aos processos de transformaçāo correntes. As pessoas podem ser interrompidas em seu exercício clínico, por não ter os registros adequados de profissão no tratamento de outros e por abuso de poder e mal exercício da profissão, mas não se pode interromper alguém por veicular conhecimentos e experiências próprias. Fazer isso é próprio de ditaduras e sociedades fascistas.

A ciência mudou bastante em relação ao conhecimento humano e tem se encontrado com conhecimentos que anteriormente eram considerados somente espirituais e ancestrais, mas que foram considerados ciência antes da ciência moderna. Mas a rigidez de algumas áreas da ciência moderna ou de alguns "científicos"  denota aquilo que Jung chama de "unilateralidade da consciência". De fato, é uma dificuldade da consciência condicionada de ir além do complexo do Ego e da racionalidade extremada.

Na ruptura de Jung com Freud existem vários pontos importantes, que muitas vezes são pouco seguidos e mal entendidos por psicólogos junguianos ou pós, que acabam reproduzindo uma certa estrutura de psique ao estilo freudiano. A psicologia analítica em sua formulação de psicoterapia e cosmovisāo porta uma espinha dorsal, que é baseada nos processos de individuação, do próprio Jung e de pacientes que ele acompanhou e que acabou por dar uma perspectiva histórica aos processos de transformação que vivia a psique de ocidentais unilateralizados. Que entraram em enantiodromia, ou seja, o condicionamento e especialização da cultura e das psiques acabaram por gerar um movimento contrário, que ia além do ego consciente, para o resgate da alma, do ser, de uma personalidade mais íntegra, mais total, com um foco bastante diferente: A pessoa não amadurece porque se adapta à sociedade, mas porque está de acordo com "si-mesma". Vale a frase clássica de Jung:"Só aquilo que somos verdadeiramente pode nos curar. A adaptação é interna. Mas as relações e conexões que se criam dessa experiência são internas e externas, fazendo valer a frase dos alquimistas: Assim como é dentro, é fora.

Jung, entāo, faz uma mudança radical, em relação à Freud, que considerava o inconsciente somente como o repositório daquilo que a consciência através de seu condicionamento social e cultural permitia e de instintos e pulsões de suas características e natureza-humana. Jung traz o conceito de inconsciente coletivo como a matriz da psique ou tudo aquilo que a gera e que a regenera (nesse conceito está o conceito de SELF PRIMORDIAL e os arquétipos principais).

Nele também está contido a diferença no conceito de libido, que para Freud era energia sexual e para Jung era energia espiritual, que incluía a energia sexual, mas  era mais ampla. O conceito de espiritualidade em Jung se refere à ampliação de consciência. Hoje sabemos pelos conhecimentos antigos orientais e corroborado pela ciência quântica, que somos vários corpos que se interpenetram, do físico ao sutil (até o corpo causal ou espiritual), baseados também na espiritualidade e psicologia oriental. Jung esteve na Índia com mestres, fazia meditação, yoga. Escreveu sobre processos de transformação em iogues chineses, como O Segredo da Flor de Ouro, e escreveu  o prefácio do livro de Wilhelm Reich-I ching que é um referência em seus estudos de sincronicidade. Estudou por mais de uma década os livros de alquimistas em sânscrito e outras línguas. Esteve na África com tribos xamânicas e nos Estados Unidos com vários povos indígenas. Teve uma relação estreita com Mircea Eliade e seus estudos sobre xamanismo, além de seu conhecimento de psiquiatria e muitos outros estudos que dão conta de sua erudição e conhecimento de várias culturas. E em seus estudos trouxe o conhecimento do que seria a consciência crística e seus equivalentes na dinâmica do si-mesmo. E tudo isso foi básico na constituição de seu conhecimento, que hoje sabemos não é somente uma psicologia, mas uma cosmovisão. E, independente do que as mentalidades estreitas pensam, uma cosmovisão necessária a estes tempos.

  A idéia de que somos energia perpassa também as perspectivas científicas, da natureza e espirituais e não podemos mais fazer de conta que isso nāo é importante em qualquer processo de regeneração, cura ou harmonizaçāo psíquica. A ciência em geral tem passado por transformações que revolucionam os seus conceitos e vão desde a física quântica, ressonância mórfica  e epigenética, que colocam a energia como ponto fulcral no desenvolvimento humano.

Nesse sentido e percebendo as ocorrências e mudanças atuais, fica difícil entender que as psicoterapias de qualquer corrente psicológica nāo estejam envolvidas, de certa forma, com processos de transformaçāo de pessoas, que tem se generalizado. E por isso hoje já existe a Psicologia Transpessoal, que aborda processos de transformaçāo, que sāo transego. Mas, em Jung sua psicologia tratava de uma  psicologia de transformaçāo, que foi ganhando corpo  à medida do avanço de seu próprio processo de individuaçāo e do acompanhamento do processo de várias pessoas. E em seu trabalho a perspectiva histórica da mudança de consciência, que está posta em Aion, nos coloca diante de mudanças, que dizem respeito nāo somente a pessoas individualmente, mas dizem respeito às coletividades e a saltos de consciência, em que todos seremos afetados de alguma forma.

Na Psicologia Analítica existem duas percepções sobre a "individuaçāo", a primeira de Jung na qual a partir da meia-idade, na cultura ocidental, pela unilateralidade da consciência e em um movimento existencial e preparação para a morte, ocorre a enantiodromia, um processo de revisāo da personalidade, que a leva a individualizar-se, diferenciando-se do coletivo e integrando outras funções psíquicas, partes de si e deixadas ao largo na primeira metade da vida. Significa o reencontro com o SELF, o arquétipo ordenador da psique, para uma personalidade mais íntegra,  mais total. E há outra visāo, de Erich Neumann, que a individuação inicia desde que nascemos e a crise da meia-idade, a metanóia, e o autoconhecimento são a possibilidade de uma personalidade mais autêntica. 

Em qualquer dos casos a função transcendente na psicologia analítica é importante. Sabemos também que durante uma "psicoterapia" com base na psicologia analítica pode ocorrer uma enantiodromia (mudança de pêndulo). E por isso, sempre me causa estranheza quando algum analista junguiano fala da terapia como sendo uma relaçāo somente consciente-inconsciente. E parece às vezes que há receio de focar no tema funçāo transcendente e inconsciente coletivo. Ora, o inconsciente coletivo deveria ser básico na terapia junguiana, já que os arquétipos nos quais se trabalha uma individuação e, que segundo Jung, está estruturada a psique são todos do inconsciente coletivo (Self, anima, animus, sombra e os complexos-arquétipos). E diferentemente de outras psicoterapias, a diferenciação do indivíduo da sociedade e cultura é importante, já que se busca a adaptação interna do individuo e alinhamento ao Self.

 A funçāo transcendente ou resoluçāo do conflito entre consciente e inconsciente só pode existir através do símbolo e em dada etapa dos arquétipos, na psicologia analítica. E neste caso sāo necessárias ferramentas apropriadas (imaginação ativa, amplificaçāo e análise de sonhos, arteterapia  e outras que vão além da conversa entre terapeuta e cliente, que definem as terapias freudianas, lembrando que as ferramentas simbólicas citadas, podem  também ser parte do diálogo. Outro aspecto importante é a relaçāo estabelecida com o coletivo.

Quando trabalhamos, por exemplo, nas áreas de humanidades na cultura ocidental, como intelectuais, como professores ou através de alguma militância política, mesmo tendo uma atitude critica da sociedade e cultura, a compreensão desse coletivo, ainda que exercida com criticidade é dada por um condicionamento social e cultural, educação, aprendizagens, que em geral  se encontram no escopo da unilateralidade da consciência, na identificação que o indivíduo  da cultura ocidental tem com uma função psíquica principal possível e algumas vezes uma função auxiliar, mas que por essa identificação tem a separatividade estabelecida. E ela é estabelecida desde a infância, quando ocorre a formação do ego e vai até o seu provável amadurecimento. Nesses casos a observaçāo da sociedade e cultura pelo indivíduo é realizada com pouca conexāo e a ciência positivista apregoa a objetividade como sendo a separação entre observador e objeto.

É somente com a diferenciaçāo do indivíduo e ampliação da personalidade, com a integração das outras funções psíquicas, que se abre o leque de outras possibilidades de percepção e conexão. A alma é múltipla e nesse eixo de consciência a ilusão de falsa unidade, dada pelo ego, já não existe. E o indivíduo se abre para outras possibilidades de conhecimento, de existência, além das possibilidades criativas. Quando Jung diz: A relação entre terapeuta e cliente é de alma para alma pressupõe essa possibilidade criativa, longe de qualquer literalidade e técnica. As ferramentas criativas não são iguais para todos, assim como qualquer técnica. Isso pressupõe também a necessidade de autoconhecimento, por parte dos terapeutas, mais do que muitos cursinhos, doutorados e muitas leituras sem verdadeira compreensão. Jung é muito mais fácil de compreender (é considerado um autor de difícil leitura) quando vivemos o processo de individuação ou processo de autoconhecimento.

E sobre o coletivo (sociedade e cultura) é através  do inconsciente coletivo que  o indivíduo estabelece uma relação diferente. Ela muda e passa a incluir: Maior objetividade e ao mesmo tempo maior conexão. A relação com o coletivo muda através da relação com o inconsciente coletivo e o arquétipo central: O self. O processo de individuaçāo, com a funçāo transcendente que porta o símbolo, com a circuambulaçāo e o movimento do Solve e Coagula (em que se desintegram e reintegram as funções psíquicas necessárias a uma psique mais íntegra e mais total), em uma relação ego consciente e inconsciente e alinhamento  e diálogo ego-self, resulta em mais objetividade e mais conexão ao mesmo tempo

Além disso, na psicologia analítica, a imaginação e o "fazer alma", segundo James Hillman, com abertura para as várias abordagens de mudança da consciência,  podem proporcionar uma relação diferente com o coletivo. Não se pode esquecer que a individuação vai de um autoconhecimento pessoal a esferas cada vez mais coletivas internas. Dessa forma, a psicologia analítica deixa de ser somente uma aprendizagem curricular, para ser uma aprendizagem e resgate de alma. Jung em seu processo e estudos e como tantos outros, que buscaram a alma e o ser na cultura ocidental, lembram-nos que no processo de transformaçāo para um salto da consciência "assim como é  dentro é  fora, como é encima é embaixo", herança dos alquimistas.

Vivemos em tempo de transformaçāo e a psique nāo é estática. E por isso a busca cada vez maior da superação da identidade egóica ocorrerá (e já está ocorrendo) em crises e na necessidade de mudanças. E isso significa entender que um novo centro da personalidade está se formando, e com ele uma capacidade maior de acolher essas mudanças, considerando as mudanças bioespirituais do próprio planeta. E as psicoterapias e análises poderão ser mais eficazes à medida que considerem essas necessidades dos seres humanos ocidentais.

Verônica Maria Mapurunga de Miranda -26.12.2025-02.01.2026

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Bibliografia sobre individuação:

1- Jung Carl Gustav - O homem e Seus Símbolos - Rio de Janeiro : Ed. Nova Fronteira. Edição Especial Brasileira .

2- Jung Carl Gustav - Aion - Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis, RJ: Vozes, 5ª edição, 1998.

3 - Jung Carl Gustav  -Tipos Psicológicos- OBRAS COMPLETAS DE C.G. JUNG VOLUME VI - Petrópolis. RJ: Vozes, 1991

4- Jung Carl Gustav - O Eu e o inconsciente- Petrópolis, RJ: Vozes, 1987

5- Jung , Carl Gustav - Psicologia e Alquimia- Petrópolis, RJ: Vozes, 1990.

6- Jung , Carl Gustav - Psicologia do Inconsciente - Petrópolis, Vozes, 1980

7- Jung, Carl Gustav - Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo - Petrópolis, RJ:Vozes, 2000.

8- Jung, Carl Gustav - Estudos Alquímicos - Petrópolis, RJ:Vozes, 2003

9- Marie Louise Von Franz - Psicoterapia - São Paulo, Paulus, Coleção Amor e Psique,3ª edição, 2011

10 - Maroni, Amnéris - Figuras da Imaginação - Buscando compreender a psique. São Paulo: Summus, 2001

 


Fotomontagem por Verônica Maria Mapurunga de Miranda

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