Contando um Conto

A Terceira Pessoa  ou Conto de Natal

Peixinho Salvador

                  Começara a semana intrigada. Algo lhe faltava, mas nada concreto. Procurara em vão nos cômodos da casa, nas pessoas, essa ausência que queria se anunciar como presença.

                 Aos poucos, começara a perceber, escrevia errado. Simples vícios de linguagem ou as mensagens  que enviara e que diziam "gostaria de vê-lo" ou "queria vê-lo" buscavam mais? Além do Eu e do Tu que encerravam essas frases, existiria mais alguém? Quem sabe uma terceira pessoa.

             Os dias pareciam infindáveis, passavam como meses. Vontade de comer peixinhos. Ou vontade de ser peixinho? E a semana ainda não terminara. Teria que completar um ciclo. Quantas luas, quantos dias, quantas vezes ao dormir, procurara debaixo do travesseiro, nas dobras da fronha, aquela ausência-presença inquietante.

            Na noite insone e inquieta uma mensagem de um amigo procurava ajudar, ou  parir. Dizia: Cacilda! Será que eu entendi o que você quer dizer? "Eu queria vê-lo". Este "lo" substitui "você". Muito bom em gramática, o amigo não sabia ainda, era um bom parteiro. Acabava de ajudar no nascimento de uma terceira pessoa, resolvendo uma charada: você é igual a mim. O mim ou eu, peixinho errante e redescoberto, achando o caminho para buscar o mar.

             Quantas vezes pensara que alguém alegre e luminoso chegaria de carruagem trazendo uma boa nova, o segredo, ou a magia que curaria todas as dúvidas, interrogações e medos?  E agora, simples e humilde, sem grande estardalhaços se acercava essa presença.

                   Fora dormir cantando : é natal, é natal, já chegou natal! Via o Menino Jesus na manjedoura, uma promessa divina. A estrela, um caminho de luz para o(s) Rei (s) Mago(s). Dormira um sono inocente, mais quieto e mais plácido. Algo real e concreto estava acontecendo- uma presença. Seria a terceira pessoa?

          Acordara, no dia seguinte cantando com Milton Nascimento, Djavan, Simone e tantos outros: Por tanto amor, por tanta emoção/ A vida me fez assim/ Doce ou atroz, manso ou feroz/ Eu salvador de mim.

          Mas a letra correta não seria Eu caçador de mim? Já foi...já foi. Hoje se fez a criação, e poder-se-ia dizer que já raiou a liberdade no horizonte do Brasil...

Como diria um Inconfidente Mineiro: Libertas quae sera tamen.

 

Verônica M. Mapurunga de Miranda -  25/Novembro/1999


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