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Algo que não se pode negar, que está na literatura, nos
cancioneiros, nas artes e expressões populares: professoras e principalmente a primeira
professora é uma segunda mãe. Isso quando aplicado ao universo masculino é muito mais
sério.
Quem não lembra da música do Ataulfo Alves : ...Que
saudade da professorinha, que me ensinou o bê-á-bá, onde andará Mariazinha meu
primeiro amor onde andará?
Passemos por cima de Freud, para não sermos acusados de estar
psicologizando as lembranças, mas mesmo assim como esquecer as idéias sobre Édipo, tão
difundidas e de tão grande capilaridade em nossa cultura. Quem sempre pensou que Édipo
se relaciona somente com a mãe enganou-se. O Édipo se relaciona também com as
professoras.
Quando
estava quase saindo da adolescência dos 17 a 18 anos, tornei-me professora de
adolescentes, de 12 a 15 anos. Apesar da pouca diferença de idade era tratada e
respeitada como professora, mas nunca tinha me dado conta da profundidade que encerrava
essa relação, até um ano atrás, quando me encontrei com vários ex-alunos meus, dessa
época, reunidos. Um deles abraçou-me e disse-me: Minha professora...sabia que
eu era apaixonado por você, quando era seu aluno? E não só eu, todos os meninos da
minha turma também.
Fiquei
um pouco estupefata com esta declaração, pois nunca havia vazado nenhuma informação
nesse sentido, na época. Se fosse paixão de homem-mulher obviamente que teriam se
declarado. Veio-me, então, a constatação de que era paixão de professora mesmo. Ou
seja, paixão de segunda mãe. Pensei cá com os meus botões: Êta culturazinha
edípica! Pois tinha um agravante, nem eu fazia ainda o tipo de mãe, e nem eles eram
mais crianças.
Daí que passei a pensar mais seriamente nessas relações
perigosas. E digo perigosas porque com a mãe, em uma considerável quantidade de casos,
há um pai que limita seu pimpolho, e que lhe diz: Olhe rapaz, cresça e apareça!
Depois, conta pra ele uma estorinha do Édipo e Jocasta, pra ele saber o que acontece com
os filhos quando se apaixonam muito pela mãe.
Mas, com as professoras não há pai, e não há culpa
da criança. Ela vai com tudo, e com todo o erotismo que não pode exercer com a mãe. A
questão a saber é se a professora faz um papel necessário de equilíbrio, onde a
criança pode extravasar seus sentimentos, ou se ela reforça esse grande vínculo do
filho com a mãe, às vezes, uma mãe que não quer mesmo cortar o cordão, já
imaginaram? E no caso da professora, uma professora que quer ser mãe, do tipo
Jocasta? Temos assim a possibilidade de um novo Édipo o Édipo Eterno, porque uma
mãe Jocasta já não é pouca, duas então...
Pensando sobre isso retornei ao meu tempo de aluna, e
lembrei que esse sentimento também é reforçado na adolescência. Uma vez, aos doze
anos, a professora de redação deu um tema para desenvolvermos: uma carta para
parabenizar nossa primeira professora pelo seu aniversário. Logo que concluídas, a
professora começou a chamar os alunos para lerem suas redações.
Todas continham os cumprimentos, saudades e tantos outros
sentimentos que reforçavam a idéia da primeira professora como a segunda mãe. Mas a de
um colega quebrou o clima de sentimentos tão compenetrados e a classe explodiu em riso.
É que depois de todos os elogios à professora,
cumprimentos e de colocá-la em um altar, ele se lembrou do presente, que
ninguém mais tinha lembrado. Lendo sua redação muito compenetrado ele concluiu a carta:
Da. Rosinha... o seu presente está contido no
conteúdo desta carta.
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Ofereço estas mal traçadas
linhas a todos os homens que tiveram professoras Jocastas quando crianças, e não
souberam os riscos que corriam, e em especial para um amigo virtual que completa
primaveras, lembrando que o seu presente está contido no
conteúdo desta crônica.
Verônica M. Mapurunga
de Miranda -21/outubro/2000
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Aos
psicólogos ou psicanalistas da rede, ou de plantão, que quiserem contribuir
com essa questão delicada e profunda da nossa cultura pergunto: Qual a
participação das professoras no Complexo de Édipo?
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