TRANSITANDO EM NOVOS PARADIGMA

16-A CRIANÇA INTERIOR É TEMA ANTIGO E NECESSÁRIO NA CULTURA PATRIARCAL, MAS ADQUIRE  MAIOR IMPORTÂNCIA QUANDO TODOS TEMOS QUE RENASCER  (VEJA ARQUIVOS)

A Criança Interior é um tema bastante abordado por Jung, junguianos, ou outros psicólogos transpessoais.  Tenho em meu Portal na internet uma página sobre a criança interior de um livro organizado por Jeremiah Abrahms com vários autores que trabalham há tempos o resgate da criança interior, desde o final do século que passou.  Fiz artigos nesta página JUNG PARA A VIDA sobre isso. A criança  é o começo e o fim e o recomeço. Estão em textos e imagens em meu Portal Artesanias de Veronica Miranda, em uma trajetória de mais de duas décadas. E estão na internet porque têm também um significado coletivo e  nesse sentido é também um serviço. Aprendi e me aprendi imensamente com todos esses estudos, trabalhos, terapias e formas de acessar a criança interior e sou muito grata a todos por isso. Desde essa época também iniciei uma seção do meu Portal Artesanias de Verônica Miranda que se chama Fale com Eles- Um olhar sobre a cultura, que trata dos problemas culturais que nos afligem como brasileiros, que necessitam de integração  e resolução de problemas básicos  da cultura e civilização, que são também históricos e em processo cada vez mais acelerado de mudanças. Mudanças que necessitam serem acolhidas.

Mas, para mim, desde um certo tempo, aquele em que a relação é mais coletiva(das camadas coletivas) quem melhor fala disso é o psiquiatra Cláudio Naranjo, quando aborda o patriarcalismo de forma profunda, assim como  as mulheres que passaram por processos de transformação e tiveram que resgatar sua criança interior e acompanhar outras como Marion Woodman. Me incluo entre elas e tenho abordado essa questão, de uma forma que vai além simplesmente do foco individual de cada pessoa e se amplia quando começamos a entender a relação de sistemas, como algo que tem conexão interior. Está em todo o meu trabalho. E hoje trabalhar a criança interior é básico. Eu diria que é uma necessidade de todos que vivem no patriarcado. Porque ele acaba moldando a educação e os condicionamentos que temos na sociedade e cultura e sufoca a criança, que traz sensibilidade, espontaneidade, encantamento e inocência. E isso se relaciona também com um determinado tipo de educação masculina, que diz aos homens não chore, não sinta, seja valente. E ser valente é não mostrar sentimentos, vulnerabilidade, porque a sociedade e cultura nesta civilização é predatória e a pessoa não pode ser considerada fraca, porque lhe predam, extorquem e lhe exploram em um sistema de vida que tem por base a exploração do outro, de várias formas. E daí a importância da colocação de Cláudio Naranjo, do sufocamento da criança interior, como algo sistêmico. E em um processo de autoconhecimento se deparar com essa realidade é difícil, mas importante ter essa compreensão, que deveria ter uma reviravolta na educação, na família e nas comunicações, que hoje fazem uma educação virtual das crianças e adultos.

 O sufocamento da criança interior está intimamente ligado ao patriarcalismo, e o patriarcalismo está em várias culturas. E ainda que tenham diferenças na educação, na relação com as crianças e natureza, na cultura brasileira que é também atualmente "misturada" está também nas tribos indígenas, não necessariamente da mesma forma. Hoje nós temos organizações feministas indígenas, como a ANMIGA que por mérito próprio está no conselho de combate à violência à mulher. Apesar de lideranças indígenas  antigas masculinas dizerem que não existe machismo na cultura indígena e uma dada antropologia confirma, temos ouvido muitas vozes de mulheres indígenas dizendo o contrário. De alguma forma houve mudanças na dinâmica social e cultural dos povos indígenas, acesso à outras culturas através dos meios de comunicação, e as mulheres indígenas no Brasil têm ocupado um papel relevante na representação indígena e no cenário político e de defesa de seus povos, famílias e territórios tradicionais. E isso as tornam pessoas atuantes na dupla organização social e educação e enquanto atuação política no país e na organização de seus povos, fazendo florescer uma autoridade interna que questiona  e transforma e está cheia da força dessa criança interior,no movimento da preservação da vida e cultura de seus povos. E essa criança cheia de natureza é importante não somente para os povos indígenas, mas para toda a cultura do pais.

A criança interior só se expressa verdadeiramente quando máscaras culturais como o patriarcalismo, que é de fato transcultural, caem. O mundo da criança interior se verifica nas mulheres que estão marchando, sejam elas indígenas ou não. E foi visto no movimento e marcha das mulheres indígenas que continua. A força da criança interior está com elas. A criança interior exige coerência e fala verdades sem máscaras, que às  vezes parece rude, mas sāo necessárias. Em geral nāo dão IBOPE.

 Além disso, existem muitas lideranças indígenas que vivem em três mundos (indigena, negro e branco ou mestiço), com famílias misturadas. E não há como fugir de todos os condicionamentos e das frases aladas que todos repetem, às vezes copiadas de algum lugar, sem citação.

 Como dizia Krishnamurti  e o próprio Cláudio Naranjo (cito sempre os autores e seus comentários), a sensibilidade é muito necessária para resgatar a criança interior e uma espiritualidade de acordo com estes tempos. A sensibilidade, contudo, não é  algo apresentável,  mas algo praticável. A coerência é necessária. Então ela nem sempre pisa suave e faz ruídos.

Outro dia ouvi um líder indígena dizer que se quisessem acabar  com os inďígenas podiam acabar porque o indígena continuaria nos mestiços, que são a maioria da população. Acho interessante a história da continuidade e admitir que os mestiços têm em si o indígena, porque existem indígenas que não gostam de admitir isso e muitas vezes já têm uma mistura grande nas próprias famílias.  E isso é algo difícil de lidar: Uma vida em três mundos diferentes.

Sou muito orgulhosa de ser mestiça, assim como são mestiços grande parte dos brasileiros. Ser mestiço, usufruindo e fazendo valer tudo aquilo que uma mestiçagem harmônica (e não a mestiçagem violenta da colonização ) nos traz é a ancestralidade do futuro próximo.  E é aquilo que nos vivifica e vivifica a cultura. A harmonizaçāo das raças e etnias nos  países colonizados é necessária.  Uma das díreções da evolução humana é aproximar as raças e etnias. Sem essa aproximação e convivência a mutualidade não é possível  e ocorre o contrário, como acontece por vários fatores e assimetrias históricas e atuais e que acaba envolvendo a questão do identitarismo. As raças, etnias  e culturas diversas  começam  a se repelir em vez de se aproximarem.

A criança interior não discrimina raças e etnias e, sobretudo, não DESISTE. Vi a força das mulheres indígenas, quando lideranças masculinas indígenas diziam que nāo havia o que fazer diante do quadro calamitoso dos indígenas na época da COVID 19.

Ela é uma força e condição para a horizontalidade que portamos e que necessita se realizar internamente, individualmente e coletivamente. Porta a inocência no lugar da ingenuidade e o interesse em aprender com o outro. A mudança é de dentro para fora e isso significa também curar conflitos internos. Muitas doenças dos sistemas familiares e da  cultura surgem  desses conflitos. Da não aceitação de todas as culturas, das religiões, das substâncias que compõem as heranças filogenéticas e nos fazem. São partes da alma. São partículas divinas capazes de formar um novo centro magnético para o mundo que estamos começando a trilhar. No caso da criança  interior coletiva que parece mais abstrata ou simbólica é aquilo que une e harmoniza a multiplicidade, a alma coletiva. E está nos esperando. O futuro ancestral é essa relação resolvida e harmônica dentro e fora, individual e coletiva. Todos teremos que morrer nas nossas separatividades e egos para dar passagem a essa criança, que de fato é a síntese de tudo e a possibilidade de convivência pacifica interna e externa com todas as nossas culturas, raças, substâncias alquímicas e filogenéticas. Quem ja viveu o processo de reconhecimento de todas as suas partes e culturas sabe que é um processo liberador e que te coloca em uma raiz e ao mesmo tempo te nutre com substâncias que são alquímicas, mas que faltavam  à alma. E por isso há uma criança interior que é parte de cada autoridade interna individual e uma criança interior que é parte da universalidade de uma cultura humana que precisa florescer.

Desde criança cresci em uma cidade de cultura colonial em que pela forma de assimilação da cultura indígena, sem ter remanescentes, o acesso a essa ancestralidade era difícil. E pesquisar nessa área era mais difícil, porque só havia em documentos a versão do colonizador. Quando pesquisava em arquivos públicos no Ceará e até mesmo no Arquivo Nacional no Rio de Janeiro e Arquivos do Estado de São Paulo sobre outros temas de pesquisa, me defrontava com relatórios governamentais e livros sobre a cultura e localização das tribos indígenas no Ceará, mas aquilo parecia muito distante. Os indígenas eram vistos como povos que foram exterminados. E a falta de comunicação com outras regiões, que era mais difícil naquela época, tornava mais difícil também o conhecimento verdadeiro dessas culturas no Ceará.

Lembro que quando fazia estágio em colégios em Fortaleza, parte de atividades curriculares do curso de História, levei uma reportagem com indígenas do Xingu na Revista Isto è, que era uma entrevista cheia de novidades, porque em geral  os indígenas não estavam nos meios de comunicação. Na entrevista o indígena dizia : Se for para ser brasileiro (não se considerava brasileiro) só aceito se for para ser empresário, porque para ser trabalhador, prefiro continuar indígena. Para mim aquilo era um tanto chocante, pela separação grande que existia de cultura e cosmovisão. Levei para a sala de aula, mas percebi que apesar de ser uma novidade não havia muito interesse dos alunos. Meu principal objetivo era dizer que os indígenas ainda existiam, porque no Ceará, nessa época, os indígenas remanescentes eram tratados como caboclos em suas localidades, e  haviam perdido suas identidades culturais.

No inicio dos anos 80, do século passado, eu  estava participando de uma pesquisa no sertão, com parceiros produtores em áreas de conflito e nos aproximamos do Centro de Defesa dos Direitos Humanos da Arquidiocese de Fortaleza, que dava assessoria aos produtores rurais em conflito  e faziam parte dos Encontros Zonais da Arquidiocese, que neste período assumia um tanto da Teologia da Libertação. E um dia pesquisando no Centro de Defesa dos Direitos Humanos, o advogado perguntou-me na frente de um padre filósofo, que  havia sido meu professor de filosofia em História: Verônica, nos lugares e arquivos públicos que você pesquisa você viu algum mapa antigo das localidades dos indígenas no Ceará? E eu falei para ele: Acho que vi um livro de Pompeu Sobrinho que tinha um mapa dessas localidades. E ele me pediu para xerocar porque eles juntamente com a Caritas Arquidiocesana  estavam tentando localizar possíveis remanescentes de indígenas. Levei uma cópia para ele de um mapa e descrição desse antigo livro. E a partir daí eles começaram um trabalho de mapeamento de possíveis povos indígenas que viviam, de forma oculta, sem direito às suas identidades. A partir desse trabalho da Caritas Arquidiocesana e Centro de Defesa dos direitos Humanos se iniciaram as descobertas dos primeiros remanescentes, que depois foram incorporados nas política públicas .

 Até aí se sabia que já não  existiam mais indígenas no Ceará. O padre filósofo que nos acompanhava na conversa sobre os indígenas disse: Podem falar mal, quem quiser, dos jesuítas, mas eles ajudaram a proteger os indígenas. Eu disse: Ah, é? E onde estão os indígenas protegidos? Pelo que sei não existe mais indígena no Ceará. Ele  não gostou do meu comentário e saiu rapidamente. De fato, aí começou  a pesquisa para os primeiros resgates dos indígenas no Ceará. E houve muita luta deles para resgatar suas culturas e suas terras. No entanto, em minha pequena cidade natal nada ocorreu nesse sentido. É importante saber que mesmo não tendo contato e nem trabalhado com indígenas {acompanhei através dos meios de comunicação logo que os indígenas começaram a se expressar e expor suas vozes), a raiz indígena estava lá, quando meus rizomas foram requeridos. E algumas vezes estou com vontade de comer peixe com farinha de mandioca e penso: Estou na minha semana de India Tikuna.(rss...).Como disse, a alquimia da alma existe e o inconsciente coletivo ajuda. Com  certeza os meios de comunicação e as políticas públicas, a partir dos primeiros governos Lula, favoreceram bastante esses reencontros. E essa presença indígena  favoreceu os encontros, as misturas de cultura e por que não os estranhamentos? Depois que passaram para a fase de governança conjunta, neste último governo, muita coisa avançou. E a Universidade Indígena já é uma realidade importante para as culturas. As misturas ainda precisam encontrar um denominador comum, ou aquilo que já foi denominado por Tom Zé em uma canção, e que eu assumi, com o nome de Unimultiplicidade.

Meu encontro com a cultura negra também ocorreu e já relatei em dois episódios: Um na descoberta, por um ex-colega de trabalho, negro, de que minha arte poderia ser vista como arte de uma artista negra e uma grande emoção que tive ao assistir o documentário Ori, com Beatriz Nascimento. É incrível como a arte é possibilitadora desses encontros e sempre há um canal para que essas realidades internas se expressem. Estava ouvindo Morro Velho de Milton Nascimento, belamente interpretada por Mônica Salmaso, música ouvida tantas vezes, nas vozes de  Milton Nascimento e Elis Regina e de repente fui tomada por uma emoção, talvez como a  do próprio Milton Nascimento ao compor a música. E o tema colocado de forma pungente, mostrando a dura separatividade, que tem uma concretude social e cultural e que de fato carregamos internamente. A situação da população negra é ainda mais complicada, porque se o sistema separou indígenas de brancos e agora mistura, de uma forma pouco integrada e sem respeitar a autonomia indígena, por outro lado os negros foram integrados de uma forma injusta e com separatividade, em forma de preconceitos e integração econômica e social na base da pirâmide. Apesar disso culturalmente a população negra traz uma riqueza cultural muito grande e é uma cultura expansiva capaz de expandir as consciências. As questões do sistema injusto estão na base dessas relações, assim como os problemas de depredação da natureza nos ecossistemas habitados por indígenas. São problemas estruturais que só é possível começar a resolver na busca de soluções conjuntas e no conhecimento de tudo o que podemos ser sem separatividades e nas expressões verdadeiras. E essas expressões mostram aquilo que é raiz, aquilo que é expansão, aquilo que faz a síntese. E é um processo de harmonização que está sempre ocorrendo internamente quando nos abrimos para essa completude. O Self como novo centro da personalidade tem capacidade para acolher todas as facetas da alma e mostra que  o caminho é o encontro, a reunião entre culturas e não o contrário. Como diz um terapeuta do amor, pergunte sempre: O que o amor faria? Abaixo quatro textos que escrevi no facebook veronicamarmiranda sobre a situação da população negra, as  “misturas” culturais indígenas e a primeira universidade indígena no Brasil. Que nos ajude a refletir na busca não somente da autonomia e identidade cultural separatista, mas sobretudo da Unimultiplicidade.

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A MARCHA DAS MULHERES NEGRAS em Brasilia recoloca os problemas estruturais do racismo e machismo e baixas condições sócioeconômicas para a maioria delas. E a reparaçāo no que diz respeito a situação sócioeconômica só é possível com a mudança do sistema, porque a população negra se concentra nos extratos inferiores de renda. A educação é importante? Sim, mas nāo é suficiente. E quanto mais o capitalismo avança em sua fase exterminadora, mais a populaçāo negra sofre. O Estado precisa se transformar, mas nāo se transforma sozinho, sem a sociedade civil se movimentar e por isso as Marchas, denúncias e movimentos continuam importantes. Essa situaçāo precisa sair da invisibilidade e a populaçāo negra precisa entender como um todo que isso nāo é um.destino de classe, apesar de histórico. Que pode e deve ser mudado e assim como o machismo(o sistema patriarcal), o racismo estrutural só cairá completamente com a dèbâcle total do sistema. Essa consciência é necessária, assim como ações políticas. Quantos deputad@s e senador@s negros teremos no próximo ano? Veronica Maria Mapurunga de Miranda 27.11. 2025
P.s - No Brasil os governos se sucedem, mas é um Estado capitalista, que não fez nenhuma revolução interna. O Estado não fez, a rigor, nenhuma reforma estrutural. E de um certo ponto de vista administra um sistema excludente, parte do capitalismo global. As políticas de compensação atuais são políticas de compensação, dificilmente retirarão a população negra dos extratos inferiores de renda, porque o sistema continua no seu movimento de concentração. Alguém pode dizer: Pior poderia ser, sem as políticas de compensação. Sim, poderia. Mas as políticas de compensação têm um limite: Nāo existem recursos suficientes para compensar sempre os desequilíbrios e concentração do sistema, enquanto essa compensação for feita dentro do sistema. Porque alguém ou algures têm que pagar essa conta e em geral ela nāo recai sobre os proprietários dos meios de produçāo, mas sobre os demais trabalhadores em forma de impostos diretos e indiretos e sobre a exploraçāo desregrada e predatória da natureza. É injusto com os demais trabalhadores e continua sendo injusto com os que recebem a mínima compensação. Na fase do capitalismo em que estamos a situação piora, porque somos dependentes do capitalismo financeiro com suas altas e baixas e competição extrema dos mercados que exigem manobras e permanente busca de equilíbrio. O PL da devastação é resultado disso, da manutenção do sistema, que enriquece cada vez mais, poucos, abrindo fronteiras agrícolas para o setor exportador em detrimento da natureza e dos habitantes das florestas e trabalhadores, que serão sugados. E o que isso tem a ver com a população negra? Só tudo. Estão historicamente e estruturalmente na base da exploração do sistema. E se o sistema explora mais os trabalhadores, os da base serão mais explorados. E como se resolve? Quebrando a lógica e o movimento do sistema. É necessário coragem. Temos que aprender a fazer isso. Nāo existe outra saída. A inércia e nāo fazer nada será a eliminaçāo e extinçāo em massa. Isso é uma explicaçāo de porque a situaçāo dos negros nāo muda. Leis de igualdade existem, mas nāo funcionam por isso.

A lei existe, mas o Estado é capitalista e não consegue por isso realizar as mudanças. Nāo operacionaliza as mudanças. Necessitaria de uma "revolução interna" ou da quebra do sistema. Esta última pode acontecer, o sistema está se devorando, mas a quebra do sistema, pela via do próprio sistema, será mais difícil ainda para a populaçāo negra, que está nos extratos inferiores de renda. Veronica Maria Mapurunga de Miranda. 27.11.2025

(Texto Publicado no Facebook veronicamarmiranda(Veronica Maria Mapurunga Miranda)

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INTERCULTURALIDADE OU MISTURA

Esse texto foi um comentário que fiz sobre um video de um jovem indigena sobre interculturalidade nos indigenas brasileiros, mostrando como os indigenas sāo no ACAMPAMENTO TERRA LlVRE(ATL) mostrando suas identidades e como voltam ao cotidiano com culturas misturadas. Meu comentário:

"Interculturalidade é relação entre culturas. E é um conceito antigo que serve para todas as culturas. A interculturalidade inclui convivência e respeito lado a lado. Em guerra a interculturalidade desaparece, porque não há respeito pela relação e boa convivência. A interculturalidade interna é igual. Só existe quando aceitamos e respeitamos todas as partes culturais que nos definem. É necessário ter um bom diálogo com todas elas

Pela forma de colonização que houve no pais, infelizmente o que existe é mesmo mistura e uma péssima miscigenação, em que apesar de trazermos uma herança filogenética diversa, essa relação ainda nāo encontrou o seu lugar. A guerra entre os povos e civilizações existe enquanto os direitos e cada cultura nāo seja reconhecida. Enquanto houver clima de guerra a interculturalidade é difícil. Creio que há um projeto e uma idéia de interculturalidade, mas ela ainda está a caminho. Enquanto houver dominação e rejeição de uma cultura pela outra não há verdadeira interculturalidade.

O bom começo é aceitar tudo o que se é e com isso respeitar cada cultura que nos habita. Pode estar certo que todas elas tem suas qualidades e defeitos, nenhuma é superior ou inferior à outra e a verdade de cada uma deve ser buscada. Só podemos nos relacionar bem entre culturas se pudermos amar o que temos de cada uma e como pessoas iguais que somos. E isso nasce de dentro.

É bom pensar que nem todo "branco" é branco colonizador e é também misturado. E nem todo indígena trabalha pela causa indígena e reconhece sua cultura ancestral e respeita as outras culturas também . É na relação e no diálogo e respeito intercultural que crescemos dos vários lados. Se estamos em guerra não estamos em paz." Veronica Maria Mapurunga de Miranda. 20.04.2025
          (Publicado no facebook veronicamarmiranda(Veronica Maria Mapurunga Miranda)

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UNIVERSIDADE INDÍGENA: UM MARCO HISTÓRICO PARA TODOS NÓS.

Falando de interculturalidade me veio uma notícia de uma reinvindicaçāo que está entre povos indígenas e apoiadores, da fundação de uma universidade indígena. Vibrei com a idéia. Primeiro, porque existem universidades em alguns lugares da América do Sul chamadas UNIVERSIDADES INTERCULTURAIS, mas aqui e ali acabam com estrutura de universidade da cultura branca.

A crítica à Universidade da cultura branca, ainda que exista diferenças entre elas, mereceria uma longa explanação, mas o ponto crítico é que representa o pensamento organizado e estruturado de uma civilização que está em mudança acelerada e que não dá conta das necessidades das sociedades que serão construídas e que se avizinham. O pensamento, que apesar de aparecer como conhecimento diverso está tomado por uma visão de foco do sistema e estreitamento das capacidades humanas. E as capacidades humanas necessitam crescer e se desenvolver, abrir portas.

Uma universidade indígena, pensada por indígenas, estruturada por indígenas, trazendo o foco da natureza e suas várias cosmovisőes é a melhor forma de trazer esse pensamento organizado sob outra ótica, que possibilite a visão verdadeira dos povos indígenas. E só assim podemos ter condições de exercer a interculturalidade necessária ao novo conhecimento que necessitamos e a validação de conhecimentos importantes e que não cabem nas universidades atuais. Significa superarmos abismos de conhecimentos para a própria cultura brasileira, sul-americana e planetária. Essa universidade urge, assim como a demarcação de terras e os direitos indígenas reclamados para que possamos ter uma cultura minimamente de paz. A interculturalidade não pode existir em guerra. Pelo discurso do cacique Raoni no último ATL, no plenário da Camara dos Deputados, no Congresso Nacional, que convocou união entre indigenas para enfrentar os embates atuais, a articulação sem conflitos entre indígenas é necessária.

É necessário entender o que é luta por resistência e mudança e quem está lutando somente por privilégios pessoais. Uma Universidade Indígena é bom para todos e para a cultura. É necessário, entretanto, sair da mentalidade de grupelhos.
Veronica Maria Mapurunga de Miranda. 20.04.2025

(Publicado no facebook veronicamarmiranda(Veronica Maria Mapurunga Miranda)

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INTERCULTURALIDADE E TRANSFORMAÇĀO

Uma pena nāo poder participar das rodas de conversas da COP30. Esperamos que possam estar em vídeos depois. Mas o tema da interculturalidade é importante. Eu já postei um artigo aqui sobre esse assunto, inclusive pontuando a diferença que eu percebia entre mistura de culturas e interculturalidade, em relaçāo à cultura branca e indígena. E fazia alusão à guerra cultural existente. E isso é algo bem concreto, porque se os territórios indígenas nāo sāo reconhecidos e demarcados, se existe algo chamado marco temporal, se são invadidos, se ocorrem fatos terriveis, como os recentes que ocorreram com os Guaranis-Kaiwoás, essas relações acabam carregando desconfianças e até um temor atávico, que se perpetua desde a colonização. Por outro lado é necessário reconhecer a importância das cosmovisőes diferentes e respeitá-las a partir de dentro, sem querer "colonizar" o outro. A horizontalidade das relações só podem existir quando reconhecemos o outro em nós e reconhecemos e aceitamos as culturas que portamos.

Coletivamente o reconhecimento e validação do conhecimento indígena é importante. E por isso a universidade indígena necessita ser formada segundo suas próprias cosmovisőes, para que esses conhecimentos sejam validados pelos próprios indigenas e reconhecidos em sua importância e contribuição para a cultura brasileira e culturas em geral. A verdadeira interculturalidade é transcultural, capaz de transcender a própria cultura, onde nos reconhecemos da mesma espécie e no mesmo ser, como múltiplos e um ao mesmo tempo. Meu comentário para a roda de conversa:

" É necessário, mas ainda é dificil na prática. Estou preferindo dialogar com minha própria ancestralidade. O que cada cultura ainda quer é que o outro se encaixe em sua cosmovisāo. Os indigenas necessitam validar primeiramente o que são, e os brancos (que nāo sāo completamente brancos) necessitam se autoconhecer e aceitar o que săo. Alguns indígenas que foram muito aculturados e nāo aceitam o que carregam da cultura branca necessitam também curar a sua aversão a si mesmos. É um processo difícil porque ainda existe uma guerra cultural. Creio que a universidade indígena pode suscitar muitos questionamentos e buscas necessárias. Validar o conhecimento indígena independente da cultura branca, fará muito bem a todos. Há muitos brancos ou mestiços com linhagens indígenas, que nāo sabem reconhecê-las."
E o debate continua.
Veronica Maria Mapurunga de Miranda. 11.11.2025

(Publicado no facebook veronicamarmiranda(Verônica Maria Mapurunga Miranda)

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UNIVERSIDADE INĎÍGENA: VALIDAÇĀO, ACEITAÇĀO. RESSARCIMENTO DE DÍVIDA HISTÓRICA

O projeto, implantação e consolidação da Universidade Indígena no Brasil, com foco em seus saberes, valores, cosmovisőes e medicinas próprias é muito importante para as culturas indígenas em geral. E também para a cultura brasileira em geral e para todos aqueles e aquelas que se consideram mestiços e que necessitam beber dessa fonte de conhecimento para resgatar sua integridade pessoal.

Mas como tudo o que é novo e que chega solicitando acolhimento e redefinições, a universidade indígena tem gerado polêmica nas redes sociais. Já vi indígena que freqüenta universidade pública não indígena dizer que será pior para os indígenas, porque será um retrocesso e os indígenas nāo poderāo mais freqüentar as universidades comuns e ficarão isolados .

No início do segundo governo Lula escrevi um artigo no meu Portal Artesanias de Veronica Miranda, na seçāo FALE COM ELES (Um Olhar Sobre a Cultura) intitulado E A SECRETARIA DOS POVOS ORIGINÁRIOS ? CADÊ?

http://www.veronicammiranda.com.br/fale26.HTM

O artigo cobrava uma Secretaria dos Povos Indigenas, que estava diluída na Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) com ênfase maior na populaçāo negra, enquanto os indígenas dependiam da FUNAI e Ministério da Justiça . O artigo também chamava a atenção para o fato dos indígenas ainda nāo terem voz. Sempre tinha um antropólogo falando pelos indígenas, em qualquer encontro, reportagem e meios de comunicação. Era fato que muitos indígenas falavam português e muitos tinham formação universitária, exerciam profissões na cultura branca, mas nāo eram interlocutores dos indígenas. O movimento indigena ainda nāo estava articulado como se percebe atualmente e notadamente estavam sob "tutelas" , do Estado e de organizações civis e até religiosas.

Na época, a mim pareceu que os indígenas precisavam ter sua própria voz e sair de uma "tutela" que os invisibilizava e que os tornava brasileiros de segunda categoria, sem espaço para suas vidas verdadeiras e sem autonomia para decidir sobre elas no cenário politico-econômico e cultural, sempre correndo riscos de genocídio.

Mas, levantaram-se algumas poucas vozes indígenas afirmando que retirar a "tutela"do Estado nāo era bom para os indígenas, pois necessitavam de várias politicas sociais como saúde, educação, proteção de suas áreas, e por aí vai e retirar a tutela significava retirar tudo isso.

Neste último governo Lula, com o Ministério dos Povos Indígenas e FUNAI comandados por indígenas, ainda que as lideranças e entidades representativas da articulação indígena de Norte a Sul tenham tido muitos entreveros com o Estado Brasileiro, os indígenas e seus representantes adquiriram outro status político. A luta contra um sistema e seus representantes que vem desde a colonizaçāo é feroz. Luta contra a crônica anunciada de um genocídio, que está sempre rondando a vida dos povos.

Vivemos no Brasil esse movimento contraditório, que por um lado chama os povos inďígenas a participarem de forma mais efetiva da política e governança e por outro lado nas contradições de um Estado capitalista monopolista, entrando em fase de capitalismo de extinção, providencia leis e formas de extrair da natureza e terras indígenas seus últimos minérios e suspiros de natureza viva. A casa da resistência indígena (as florestas e biomas por eles habitados ) está na berlinda capitalista destrutiva e com ela o temor colonial do genocídio.

A universidade indígena, portanto, aparece em um momento que pode lançar luzes de consciência sobre o abismo de um sistema que jâ nāo pode mais frutificar e que necessita criar novas formas de vida. E por isso nāo pode significar confinamento dos indígenas, mas o espaço de validação da cultura, dos saberes, da Medicina indígena. E quem pode validar isso? Os próprios indígenas no reconhecimento e resgate desse conhecimento que existe e está disperso. Outro dia soube de uma cátedra de medicina indígena que existe em uma universidade na amazônia brasileira.

Esse conhecimento sistematizado em novas formas florescerá novas relações, pontes culturais e denominadores comuns para um novo patamar de conhecimento e consciência .

Mas, não devemos pensar que os indígenas tenham de ficar restritos a isso e os que quiserem continuar cursando cursos e profissões em Universidades públicas ou privadas deverão poder fazê-lo. A Universidade indígena, que é parte do ressarcimento de uma dívida histórica com os povos indigenas, dessa forma nāo deve ser vista como confinamento, mas como expansão do conhecimento para todos.Veronica Maria Mapurunga de Miranda. 04. 02. 2026

(Publicado no facebook veronicamarmiranda(Verônica Maria Mapurunga Miranda)

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Como dizia Jung: A criança é o começo e o fim. E é com ela ou um novo renascimento transcultural de brancos ou mestiços, de negros e indigenas, que é possível o início de um novo ciclo. Muitas pessoas falam e usam frases aladas sobre o futuro ancestral, colocando que o futuro será indígena e que os brancos terão que renascer e coisas do tipo. De fato, todos teremos que renascer. A harmonização significa vencer a separatividade, a competição, o conflito e a necessidade permanente de justiça ou vingança, que se estabelecem pelas assimetrias de poder e vida. Renasceremos para ser tudo aquilo que nós somos, não somente indígenas, negros e brancos ou mestiços, mas teremos direito a tudo, desde que consigamos romper as barreiras da separatividade e nos harmonizar em um novo centro, da unimultiplicidade. E para isso precisamos enfrentar as verdades históricas e aceitar os mitos que nos reúnem, sem confundi-los.(Quando pegamos uma obra de arte simbólica, feita por um artista que trata da aproximação das culturas e raças e retiramos uma raça dessa coniunctio, estamos repelindo o outro e acabando com o mito que traz possibilidades de cura.) Talvez o outro que esteja em mim e não é aceito, sem vinganças e ressentimentos. É sempre necessário buscar que partes desse sistema intercultural que nos habita está conflitando, quando os conflitos, as perseguições e violências individuais ocorrem. A criança interior liberada é capaz de superar todas as barreiras e unir as partículas divinas que nos formam todos na cultura e como humanos. A unimultiplicidade é a convergência, que supõe a existência de muitos, que aceita o outro e não exclui. E isso é válido para todos os lados.

Verônica Maria Mapurunga de Miranda – 11.09.2026

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Nota: Segundo Cláudio Naranjo o sistema patriarcal nos faz perder a espontaneidade, a empatia, a sensibilidade da criança que existe em nós  que nos leva ao mundo mágico da fantasia, da inocência e, portanto, há um difícil acesso a outras dimensões da alma, do ser, da natureza, do sublime. Há muita coerção da sensibilidade que diz"não precisa chorar". Se a pessoa não é capaz de chorar também não é capaz de sorrir. E isso é uma premissa do sistema patriarcal que remonta ao tempo da caça em que o homem tinha que ser muito forte (bem atrasado). E é um parâmetro masculino para toda a sociedade que é patriarcal. Recuperaremos nossa sensibilidade e nossa possibilidade de conexão com a natureza à medida em que o feminino e a criança interior sejam parâmetros também válidos para a cultura e sociedade. Novos valores que vêm com o respeito à alteridade. Verônica Maria Mapurunga de Miranda. (comentário meu feito no IJEP-Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa, sobre texto de Jung  em que ele aborda a dificuldade de conexão do ser humano com o cosmos e a natureza). 28.01.2025.

Bibliografia sobre individuação:

1- Jung Carl Gustav - O homem e Seus Símbolos - Rio de Janeiro : Ed. Nova Fronteira. Edição Especial Brasileira .

2- Jung Carl Gustav - Aion - Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis, RJ: Vozes, 5ª edição, 1998.

3 - Jung Carl Gustav  -Tipos Psicológicos- OBRAS COMPLETAS DE C.G. JUNG VOLUME VI - Petrópolis. RJ: Vozes, 1991

4- Jung Carl Gustav - O Eu e o inconsciente- Petrópolis, RJ: Vozes, 1987

5- Jung , Carl Gustav - Psicologia e Alquimia- Petrópolis, RJ: Vozes, 1990.

6- Jung , Carl Gustav - Psicologia do Inconsciente - Petrópolis, Vozes, 1980

7- Jung, Carl Gustav - Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo - Petrópolis, RJ:Vozes, 2000.

8- Jung, Carl Gustav - Estudos Alquímicos - Petrópolis, RJ:Vozes, 2003

9- Marie Louise Von Franz - Psicoterapia - São Paulo, Paulus, Coleção Amor e Psique,3ª edição, 2011

10 - Maroni, Amnéris - Figuras da Imaginação - Buscando compreender a psique. São Paulo: Summus, 2001

 

Este artigo está publicado também na seção Cultura- FALE COM ELES- UM OLHAR SOBRE A CULTURA. em  Artesanias de Verônica Miranda.-

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Fotomontagem por Verônica Maria Mapurunga de Miranda

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