Guia Viçosa - História e Cultura |
| Apontamentos e Reflexões |
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Quando iniciei este site -Viçosa do Ceará - Uma Página não Oficial - a seção Guia Viçosa era um lugar de fotografias de lugares interessantes, pitorescos, tradicionais para se visitar. Só havia, então, o meu site sobre Viçosa do Ceará. Hoje pululam na internet fotos lindas, lugares, publicidade, vídeos oficiais ou não sobre Viçosa do Ceará. De sorte que percebo que o mais importante nesse pequeno espaço é fazer alguns apontamentos que possam levar a uma mobilização de idéias e conhecimentos sobre a história e a cultura em Viçosa. Tenho escrito algumas crônicas no site Artesanias de Verônica Miranda, parte desse portal, que aos poucos também estarão linkados aqui, compondo esses "Apontamentos e Reflexões". Verônica Maria Mapurunga de Miranda - 19.06.2017 |
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Que a história tenha alma enquanto resgatamos as partes e os elos da história fragmentada. Que se faça a "contemporaneidade do não coetâneo" transcendendo os tempos, para vivenciarmos a cultura de um presente mais pleno. E que possamos apontar as necessidades e construir desde o aqui e agora, os tempos vindouros. Verônica Maria Mapurunga de Miranda - 21.11.2017 |
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MESTRES DO PIFE A CACHAÇA E OUTROS TROCADOS, EM VIÇOSA DO CEARÁ (Veja Arquivos) |
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Este é o Mestre do Pife ou a representação dos Mestres do Pife de Viçosa do
Ceará, que faço desde os anos 90 do século passado. Fiz muitos mestres do
pife em garrafas, argila, cimento e outros materiais. Uma representação não
somente de meu pai, mas de todos os mestres que herdaram esse dom de
fabricar de taboca (um tipo de bambu da Serra da Ibiapaba e adjacências)
instrumentos próprios com música local e antigas. Muitos mestres passaram
por minha infância e meu pai era reverente e continuador desse conhecimento,
fabricando seus próprios instrumentos. Quando terminei e fiz as capas das fitas era seu aniversário de 80 anos. Entreguei para ele como um presente e recordação e dei uma cópia para cada filho e filha. Junto com isso decorei muitas garrafinhas de licores e cachaça com essa imagem do mestre do pife (e arte recém descoberta em mim mesma) e que foi distribuída como lembrancinha da festa. Uma pequena escultura do mestre do pife como uma estátua, feita por mim, decorava o bolo de aniversário, feito por confeiteira local. O bolo era uma praça. Ele ficou muito contente, mas não parou por aí. Disse que queria reproduzir suas fitas para dá-las a alguns amigos e parentes. Eu o ajudei no início, mas depois e quando voltei para Fortaleza e sempre que o visitava o presente que ele mais gostava eram fitas cassetes para reproduzir suas duas fitas gravadas.
Dos amigos que ganharam a primeira fita cassete com suas músicas ao Pife,
Chico Caldas Filho que era um freqüentador assíduo de nossa casa e casado
com uma prima, foi o primeiro. E quando leu o texto da capa que eu tinha
feito falando das mangueiras centenárias e cheiro de terra molhada depois da
chuva, imagens que evocavam sentimentos antigos sobre a cidade, se
emocionou. E disse: Tenho que tomar uma. Estou muito emocionado. Isso é
muito bonito. Só com uma cachaça. Meu pai desde criança vivendo e trabalhando no sítio de seus pais que tinham engenho de cachaça e rapadura, desde jovem se dedicou ao trabalho da fábrica e destilação da cachaça, além do seu armazenamento e envelhecimento em tonéis de aroeira e outras madeiras apropriadas. Um trabalho de paciência e que tinha seus segredos. E quando deixou o sitio e foi morar na cidade levava um conhecimento da fabricação da bebida e sua conservação. E desde pequena convivi bastante com as atividades de meu pai e as cachaças que circulavam na casa e na cidade. E um primo muito brincalhão dizia-lhe: Alfredo Miranda, tu vai me contar ou não qual é o segredo de tua cachaça? Todo mundo fala bem da tua cachaça e nós fabricamos a cachaça igual, mas todo mundo gosta mais da tua. Qual é o segredo? O que tu faz com a cachaça para ela ficar assim? E papai respondia: Não faço nada. É cachaça envelhecida. E ele insistia: Alfredo Miranda qual é o segredo? Se tu não me contar eu juro que vou urinar na tua cova quando tu morrer. (Ele era brincalhão). Ele acabou morrendo antes de meu pai. Meu pai ria muito de suas ameaças. De fato, ele tinha lá seus segredos. Mas como eram segredos... Guardados ficaram. Mas a segunda coisa importante ê que ele (meu pai) não bebia uma gota de cachaça. Esse era o seu segundo segredo importante. Meu pai tinha na sala de jantar um quartinho comprido com teto e porta baixos, sempre fechado, cheio de prateleiras com cachaças especiais envelhecidas, de vários anos. As garrafas cobertas com um trançado de palhinha, que ele usava para presentes especiais. Era como uma adega da qual não usufruía pessoalmente. Tempos depois decidiu acabar com a adega e ampliar a sala. E deixou suas atividades com cachaça no local que era sua antiga bodega ou mercearia na frente da casa. E eu a me perguntar por que uma pessoa tāo ligada à fabricação e venda da cachaça não a consumia? Em casa, antes mesmo de existir a Casa dos Licores, quando amigos chegavam em casa e à mesa era servida a cachaça, eles diziam: Alfredo Miranda você não vai beber? E quando serviam um copo para ele, logo depois diziam: O Alfredo Miranda está enrolando . Ele não bebe e nos faz beber. Os amigos mais achegados não insistiam. Pergunto-me que experiência ou insight o fez desistir ou nem começar a beber a cachaça? Qualquer que tenha sido, entretanto, fez bem a ele. A única bebida que ele tomava diariamente, antes do banho, era um pouco de vinho com aguardente alemã. Tomava como remédio caseiro de família, pois tinha irmãos que também a tomavam.
Tomar a cachaça era para o mundo masculino em Viçosa, como um rito de
passagem para o mundo adulto ou como um sinal de masculinidade (macheza). Os
homens tomavam aquela cachaça que descia ardendo, com limão ou laranja
cortada. E na casa de meus pais a peta feita de goma de mandioca era
considerada um bom acompanhamento por todos. Ao fazer descer a cachaça
garganta adentro os homens estalavam os dedos no ar demonstrando sua
coragem. Barbaridade! Eu acompanhei com tristeza uma quantidade de jovens rapazes tornarem-se alcoólatras para uma vida inteira e estragarem suas vidas com o álcool, em Viçosa. Mas, havia sempre a frase para todos os rapazes que nāo bebiam: Você nāo é homem, não? E assim se construiu uma cultura da cachaça em que dizer que algum homem estava bêbado não era ofensa, mas sinal de que era um bom apreciador da bebida colonial. Hoje sabemos que estimular os filhos a beberem cachaça, como se fazia antes, porque era macho, pode ser um fator de destruição em suas vidas. Eu, particularmente, sempre achei uma bebida muito forte e desagradável. E era costume as mulheres não tomarem cachaça. Quando criança era proibitivo. Para as mulheres recomendavam os licores, que se faziam para casamentos, batizados e comemorações, não sendo bebida de rotina diária. De adulta, em Fortaleza e nos bares com amigos tomava caipirinha, com resultados certos de ressaca e dor de cabeça. Um dia comentando com uma prima viçosense já de larga experiência de vida que a cachaça era muito forte, ela me levou a um armário da sala de sua casa e retirou uma garrafa e disse :As mulheres nāo tomam cachaça, elas tomam zinebra. Experimente! Experimentei. Fortíssima! Detestei. Alto teor alcoólico. E ela me contou que as mulheres do campo (sitios) principalmente em áreas de engenho tomavam cotidianamente sua zinebra. Ou seja, tinham um tipo de alcoolismo oculto e pouco falado e sabido. Apesar de todo esse cercamento alcoólico da cachaça nunca tive nenhuma propensão para essa bebida. E sem nenhuma questão ideológica, mas química, sempre preferi vodca e também um bom vinho, de preferência não brasileiro, que não me dê dor de cabeça e ressaca. A cerveja também nunca me caiu muito bem e faço exceção para o chope do Rio de Janeiro, o único no país que me deixou muito bem depois de tomá-lo. Como caía bem a vodca,que não me dava ressaca e me deixava leve me perguntei:Será que meu lugar verdadeiro não seria a Rússia, onde as vodcas mais autênticas fariam melhor em minha leveza. Mas ao lembrar do meu espírito crítico necessário para esta existência sabia que não, porque provavelmente acabaria na Sibéria. E assim também não me viciei na vodca. De fato, não me viciei em nada. Hoje, já não bebo álcool. Mas, quando criança que mal sabia falar, contava uma madrinha-prima sempre rindo, um episódio em que queriam que eu tomasse leite de gado. Eu detestava o leite (e descobri depois de adulta que sempre tinha me feito mal) e os adultos insistiam no leite, que os médicos e todos diziam ser um alimento completo para as crianças. E eu então para fugir do leite disse, segundo ela: Nāo quero leite, eu quero é tachaça. Ela ria muito contando essa história. De fato depois me viciei no leite de gado e seus derivados, mas descobri sabiamente e com o trabalho de muitas pessoas experientes no assunto, que depois de um mês não consumindo leite de gado e seus derivados perdemos o vício que nos impõe a caseína, a proteína do leite, que a natureza colocou ali para que os bezerros de determinada idade procurassem a mãe vaca para se alimentar e não repudiassem o leite. Nem gado grande toma leite de bezerro e assim percebemos que a natureza providencia alimento para todos. E os leites vegetais feito de sementes, grãos, castanhas e similares são deliciosos, maravilhosos, variados, nutritivos e não viciam. Como dizem que os seres humanos necessitam de algum vício estou providenciando alguns de acordo com as necessidades das novas energias que estão chegando e novos hábitos. A verdade é que a cachaça, apesar de sua existência em um processo histórico-cultural no município de Viçosa do Ceará, é uma bebida de introdução colonial que alicerçou a destruição da vida de muitos jovens viçosenses e suas famílias. Era muito comum ver jovens, nossos parentes, no caminho do alcoolismo. Em uma época em que nāo se sabia, como hoje, todo o efeito devastador do álcool. E em uma época em que nāo conhecíamos as possibilidades de recuperação do alcoolismo dos Alcoólicos Anônimos. Ser bêbado na juventude masculina em Viçosa, uma cidade bela mas cheia de contradições e com uma psicosfera pesada, parecia ser algo comum e aceito, mas era também destruidor. Há um tempo atrás os produtores da cachaça viçosense foram pesquisar e aprender de como transformar e melhorar e tornar mais palatável, com menos teor alcoólico, a cachaça da cidade. Cheguei a experimentar a cachaça de alguns produtores e percebi que era realmente outra qualidade, mas feita de uma forma que como qualquer bebida alcoólica, não deve ser associada seja à macheza ou para aliviar os problemas psicológicos. Existem outros ritos de passagem mais construtivos e é necessário alertar que nem todos podem tomar álcool, porque podem se destruir química e alquimicamente. Nem todos podem. Hoje eu prefiro fazer o mestre do pife em garrafas de azeites, como esta. A música do mestre do pife (pífano) e minha arte, com seus símbolos, entretanto, capazes de transitar nas várias dimensões do ser humano, continuam em nossos corações e esperamos que elas cumpram seu papel libertador. Veronica Maria Mapurunga de Miranda. 04.04.2026.
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